Tecnoxamanismo Digitofágico – Pós LabsurLab: que venga el Sur!
para a Revista Global / Remix de textos de Tati Wells, Ricardo Brazileiro e Bruno Tarin / maio de 2011, de algum lugar dentro da selva.
“A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. (…) A alegria é a prova dos nove.” Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, maio de 1928.
No brasil vivemos sob a égide do trágico/honrado Bispo Sardinha, que ao ser comido pelxs índixs Caetés conjura a teoria da Antropofagia nos anos 20, transformada na nossa década em Digitofagia, ao tomar o lugar dos conceitos sobre as capturas das forças de poder. Compramos computadores em 12x sem juros, provemos net.gatos, somos difusores de conteúdo cultural nas ruas e ocupamos redes sociais com nosso português abrasileirado, nossos exóticos ufanismos. Fruto de uma heterogeneidade cultural singular, capaz de se apropriar das mais diversas e variadas formas, subvertendo normas, saberes e códigos de conduta através da incorporação do outro no eu, utilizamos da malandragem e muitas vezes da sacanagem (poética) como formas de se auto-determinar e agir politicamente, através do que vêm “além mar”.
Filhxs de uma colonização muito bem implementada à base do estupro, miscigenação e genocídio, acostumamos aos desfalques e aos desmandos, presenciamos nos dias de hoje um pequeno levante sendo construído, nadando contra a passividade de anos de repressão e total desagregação social imposta pelos estados transnacionais disciplinares, o que nos faz hoje voltarmos à tomar as ruas, as câmeras, os meios, surge a possibilidade, enfim, de uma resistência pacífica. Contudo ainda escutamos o clássico “Rouba mas faz”, vemos projetos de desenvolvimento predatório como Belo Monte: resquício do poder soberano ainda presente (o Brasil foi o único Império moderno na América latina, o último país a abolir a escravidão e uma das ditaduras mais violentas na América do Sul), repressões exageradas à manifestações pacíficas, ou os inúmeros desalojos para abrigar estádios e museus para mega-eventos - que pouco ou nada se conectam ao fluxo econômico e social das populações urbanas, etc -. Nas ruas de São Paulo do ano de 2011 ouvem-se os mesmos gritos de protesto de 30 anos atrás: “Ditadura não, abaixo a repressão!”
Aos poucos percebemos que não somos mais um país do futuro (idéia que há tanto tempo nos apegamos), mas que o futuro tornou-se um grande Brasil [1]: precário, recombinante, em crise sistêmica. Nesse cenário a Digitofagia é uma forma de pensarmos a questão do acesso, praticarmos a apropriação tecnológica. Uma alternativa para provocar uma política que ao invés de propor somente o controle tecnológico ou a toma do poder ou ainda as incorporações mercadológicas das bio-técnicas, propõe a auto-determinação política dos indivíduos e comunidades, uma política da potência, do amor e da criação. A visão digitofágica privilegia a relação, o que nas palavras de Viveiros de Castro poderíamos dizer: a troca de troca de pontos de vista ou seja, cria novas subjetividades e admite novxs sujeitxs possíveis. Nesse contexto global embaranhado no especificamente brasileiro, nos parece particularmente interessante pensarmos x sujeitx e as comunidades digitofágicas que emergem de uma série de encontros e relações de pessoas interessadas em pensar e propor ações políticas de acordo com as mudanças que vêm ocorrendo no mundo.
Labsurlab, encontro latino-americano de laboratórios de mídia que foi realizado em Medellín, Colômbia, de 4 a 12 de abril de 2011. Uma tentativa de acercarmo-nos de nossxs vizinhxs. Nascido de uma pequena insurgência de um encontro de laboratórios majoritariamente europeu (LabtoLab), LabSurLab possibilitou o reconhecimento de redes de cooperação globais e a contextualização de cenários semelhantes entre práticas de países como Chile, Brasil, Argentina e Colômbia.
O LabsurLab assim se coloca como um espaço para redes de iniciativas independentes, oficiais, marginais e institucionais que abrange: hacklabs, hackerspaces, medialabs e todo tipo de laboratórios e coletivos biopolíticos operando do e para os territórios do Sul [da América] [2], buscando desde a experimentação e criação conseguir seus próprios espaços de ação e representação, um encontro que visou colocar um sobre o outro para acionar assim os vetores e possíveis estratégias culturais da sociedade em rede. Um espaço de compartilhamento de experiências, de troca de troca de pontos de vista.
Para nós brasileirxs ali presentes, reunidos sob uma mesa chamada O Complexo Panorama Brasileiro, foi uma chance de retomar reflexões que há muito tempo iniciamos e que se desdobraram em inúmeras práticas, projetos independentes, ações coletivas, políticas públicas visionárias, encontros nômades hipermultidisciplinários (em fluxos como choques elétricos, casas coletivas, rádios livres, cotidianos sensíveis, gênero e tecnologia, dispositivos alucinógenos e ações diretas). Ali iniciamos assim uma releitura das e nas nossas táticas, pensando as articulações com a latino América que tem tanta gente bacana e que acabamos desconsiderando por costumes históricos. Essa cremos ser uma potência ainda a ser explorada e um dos possíveis desdobramentos que um festival feito LabSurLab pode produzir.
Para a mesa achamos que apenas um contexto cronológico já iria mostrar toda a complexidade das nossas atividades no Brasil. E começamos esse exercício de voltar para a época entre 90 e começo de 2000, simbolizando as convergências dos movimentos Indymedia / FSM / FISL / Metáfora / Laboratórios de Midia Tática. Um mapa que parece ter caído como um satélite nas nossas cabeças. Fazer uma pequena análise deste mapa, nos faz pensar em como nossos experimentos e pesquisas com tecnologias livres, nomadismo e comunidades, foi influenciado pela aquela história e também em como nosso movimento atualmente pode ser analisado pelo mesmo traço de 2003-2006. Mas ao final o que foi apresentado na mesa foi um panorama 2007-2011 - Seguimos a preparação da apresentação com as convergências de ações de ativismo-tecnológico-midiático e, por fim, fizemos uma breve análise de como nossos laboratórios (festivais, movimentos, pessoas, coletivos), de como são autônomos, temporários, precários e com relações institucionais conturbadas, como é o caso atual da mudança de foco do Ministério da Cultura para uma política pró-industria cultural, pró-elite-cultural e anti-cultura-livre. Paralelo a esse trabalho, participamos também da mesa sobre Labs em Redes, expondo nossas feridas da cooptação governamental sobre nossas atividades e como isso nos desestabilizou e fez com que pessoas saíssem para outros nós da rede para sobreviver em meio ao caos que é viver de arte, filosofia, ativismo e tecnologia livre e não aplicadas ao mercado no Brasil. Ao mesmo tempo, esse acesso ao governo fez com que surgissem diversos laboratórios de mídia pelos Pontos de Cultura no Brasil, fato de grande importância, fortalecendo ainda mais nosso nomadismo e independência de estruturas físicas complexas.
Nas palavras de Brazileiro: “Ter ido até a Colômbia, me fez ter uma nova visão das nossas estratégias de sobrevivência no Brasil, como somos rápidos, como somos criativos e como somos fechados para outros lugares, não olhamos para nossos vizinhos da América Latina que vivem na mesma rede e compartilham de problemas parecidos, sentem vontade de interagir mais com as redes daqui mas não enxergam essa abertura.”
Assim propomos algumas reflexões sobre pontos de convergência e dissenso entre práticas dessas redes, uma proposta de superposição de conceitos. Buscamos através do relato de algumas coisas que rolaram em Medellín e da visualização de alguns processos em curso criar um panorama como forma de possibilitar novas ações de convergência. Basicamente, como dar continuidade à efervescência que transbordou em Medellín.
Algumas coisas que rolaram no evento
O movimento dos Hacktivistas falando sobre suas estratégias de ativismo na Europa. Eles falaram sobre a Hackademy, que é “uma academia hacktivistas autogestionada que promovem cursos para libertação do computador dos softwares proprietários, com orientações para uso e difusão de ferramentas livres úteis para autodefesa digital, ativismo e comunicação libertária para produção de cultura livre”. Não muito diferente do que fazemos no Brasil com os Pontos de Cultura, organizações, festivais, pessoas, artistas.
Outra estratégia dos hacktivistas foi em cima de algumas políticas anti-pirataria e anti-cultura-livre do Ministério da Cultura da Espanha, com estratégias como Descarga Pública P2p, desmembramento político através do ativista Isaac Hacksimov, avatar-hacker que enviava fax/correios/emails para o Ministério colocando em contradição todas as políticas pró-indústria espanhola. Em outro momento, os hacktivistas falaram do sistema oiga.me que é um projeto de envio sistemático de emails para políticos e diplomatas.
Aconteceram também inúmeras oficinas, como a Trabalho em Comunidades, Video Cartografia , Mal de Arquivo e Open Solar circuits, mesas redondas, mesas de trabalho, apresentação de projetos, performances, apresentação de hacklabs e ações hacktivistas globais – como as encenadas contra as leis de propriedade intelectual lleras, acta, sinde. Resumindo, foram realizadas atividades de artes vivas, políticas públicas, noise, bioarte com microscópios, impressoras 3D, protoboards, interfaces, circuitos solares, transmissões etc.
Processos em curso e possíveis ações futuras
Acreditamos que para que as redes brasileiras possam convergir mais com loxs hermanxs é necessário criar mais metodologias de reflexão, análise de projetos, escritos coletivos, prescindindo até dos projetos em si para buscar novas formas que poderiam nos ajudar a entender melhor as linhas de fuga que temos. Sabemos que no Brasil criamos projetos em qualquer circunstância (.gov, independente, anti.projetos) algo positivo porém perigoso se pouco refletimos sobre as ações muitas vezes sendo realizadas através da politica do “Vamô-que-Vamô” que podem e muitas vezes são cooptadas pelos poderes constituídos. Por isso propomos realizar um mapa de alguns processos em curso (principalmente no Rio de Janeiro e na rede do LabsurLab) e de possíveis ações futuras.
Para o LabsurLab foi criada uma lista de discussão pós festival que creio formalizará o estreitamento de idéias entre os participantes. Atualmente poucas pessoas participam do IRC #labsurlab no Freenode e o n-1 é um sistema muito complexo que precisa ser pensado com carinho e de forma mais colaborativa. Depois do encontro foi aberto Anillo Sur dedicado a projetos desde el Sur[3]. No Brasil temos uma experiência acumulada de projetos de servidores livres que só tem a colaborar (com pontos positivos e negativos) com esta rede em formação.
Uma possibilidade que vêm sendo vislumbrada é pensar num calendário comum de ações que integrasse as redes brasileiras e colombianas, podendo ser estendida à outros países da América latina, idéia que tem sido levada adiante por Pata de Perro. No Rio está sendo matutada a idéia de um pré(ou pós:) labsurlab carioca (assim como no Chile), em conversa com uma ação regional que trata da Geopolítica de Acesso Amazônica - Hacklab [Belém][4]. Também atualmente no Rio está sendo organizada uma rede que visa realizar tanto projetos relacionados à ativismo para movimentos sociais em ferramentas livres, redes sociais alternativas e rádio como ação direta, grupos de pesquisa como o GAS (grupo de atualização e subjetivação), Yupana, MSST e espaços físicos de experimentação como o IP - onde acontecerá agora em Junho o Sudamérica Experimental [5]. No Brasil temos um mapeio nacional importante de inciativas relacionadas à permacultura e ao conceito de metareciclagem, muitas vezes fundindo-se. Pensar nestes dois eixos conceituais pode parecer contraditório, máquinas e orgânico, mas ao contemplar a permacultura como um resgate de técnicas energéticas ancestrais e a metareciclagem como a apropriação tecnológica das ferramentas contemporâneas para re-mitificá-las temos aí conceitos convergentes que vão se construindo: mídia tática, descolonização, tecnoxamanismo, novas relações do ser humanx e a máquina que visam a colaboração entre corpos que já não são separados por sujeitxs e objetos.
Assim, diante desse panorama podemos afirmar que nossa vontade não é realizar mais festivais, residências etc, estamos buscando afetividade, buscando uma reflexão sobre o outro, sobre nós. Nos parece que é preciso buscar a reflexão do outro para assim experimentarmo-nos outros, pois “eu” e “outro” são posições instáveis e intercambiadas, sentimos a necessidade de passarmos para uma ontologia prática, heterogênea e diferencial a qual o conhecer não seria mais representar o desconhecido, mas interagir com ele. Por ora chamamos isso de Tecnoxamanismo Digitofágico.
Como colocar isso em movimento? Que venga el sur del sur!
[1] http://efeefe.no-ip.org
[2] O conceito de Sul ainda está formulando suas próprias perguntas, mas extende-se basicamente a todo o precariato, não sendo uma localização puramente geográfica.
[3] http://anillosur.cc
[4] http://hacklab.art.br
[5] http://www.sudamericaexperimental.com
Pós-pós-labsurlab
Cultura rwx http://culturarwx.net/No brasil vivemos sob a égide do trágico / honrado Bispo Sardinha, comido pelos indígenas Caetés e conjurada a teoria da a antropofagia, assim como recentemente a digitofagia toma o lugar dos conceitos sobre as apropriações das forças de poder. Compramos computadores em 12x sem juros, provemos net.gatos, somos difusores de conteúdo cultural nas ruas e ocupamos redes sociais com nosso português abrasileirado, nossos exóticos ufanismos. Como colocou um teórico da cibercultura brasileira, aos poucos percebemos que não somos mais um país do futuro (idéia que há tanto tempo nos apegamos), mas que o futuro tornou-se um grande brasil: precário, recombinante, em crise sistêmica. A digitofagia torna-se então uma das únicas formas possíveis de pensarmos a questão do acesso, da apropriação tecnológica. Usamos dos meios disponíveis para transformá-los, adaptá-los às nossas necessidades e realidades. Além disso, falamos uma língua única neste continente, o que parece sempre nos afastar um pouco das questões continentais, forçados a aprender o inglês pelas novas e velhas ferramentas (TV e net). Problemas gigantescos a resolver, soluções dificelmente replicáveis.
(Talvez por isso nos falte a força de tomarmos as ruas, tal a desagregação social instaurada, uma colonização muito bem implementada pela colonização à base do estupro e miscigenação, acostumados os desfalques, os desmandos. “Rouba mas faz”. Resquícios do poder disciplinar ainda presentes como a repressão exagerada à manifestações pacíficas, inúmeros desalojos para abrigar estádios de futebol. Nas ruas de São Paulo do ano de 2011 ouvem-se os mesmos gritos de protesto de 30 anos atrás: “Ditadura não, abaixo a repressão!”)
Labsurlab, encontro latino-americano de laboratórios de mídia, foi uma tentativa de nos acercarmos de nossxs vizinhxs. Nascido de uma pequena insurgência de um encontro de laboratórios majoritariamente europeu (LabtoLab), LSL possibilitou o reconhecimento de redes de cooperação globais, e a contextualização de cenários semelhantes entre práticas de países como Chile, Brasil, Argentina e Colômbia.
Para nós brasileirxs ali presentes, reunidos sob uma mesa chamada O Complexo Panorama Brasileiro, foi uma chance de retomar reflexões que há muito tempo iniciamos e que se desdobraram em inúmeras práticas, projetos independentes, ações coletivas, políticas públicas visionárias, encontros nômades hipermultidisciplinários (em fluxos como choques elétricos, casas coletivas, rádios livres, cotidianos sensíveis, gênero e tecnologia, dispositivos alucinógenos e ações diretas). Ali iniciamos assim uma releitura nas nossas táticas, as articulações com a latina América que tem tanta gente bacana e que acabamos desconsiderando por costumes históricos. Esse creio que é um dos possíveis desdobramentos que um festival feito labsurlab pode trazer.
O que se segue abaixo são algumas reflexões sobre pontos de convergência e dissenso entre essas práticas, uma proposta de superposição de conceitos. O intuito é visualizar um panorama dos processos em curso assim como possibilitar novas ações de convergência. Basicamente, como dar continuidade à efervescência que transbordou em Medellín, essa que culminou para nós em mais uma tentativa de cristalização das táticas de apropriação tecnológicas brasileiras?
O primeiro ponto que abordo é o de língua, biopoder instaurado há mais de 500 anos e que redesenhou a nossa forma de interajir com nossas culturas originárias. Talvez pela língua e processo de colonização, na Colômbia se dá uma aproximação estreita com Europa, principalmente Espanha, e consequentemente o usufruto de toda uma infraestrutura física para a manutenção de seus sítios, listas de correio etc (como n-1), assim como a colaboração em projetos de arte e mídia. A mesa Artes Vivas parece ser um traço desta colaboração direta com a Europa já que a arte como categoria específica na tecnopolítica brasileira só vem a aparecer como tática política, quase nunca como uma estética, revelando-se bem próxima em processo artísticos mais experimentais como noise e circuit bending, expressão de uma entidade tecnocrática desde afora (máquinas e circuitos). Exceções na mídia arte brasileira existem, como Eduardo Kac e seus coelhos verdes, mas que só reforçam o distanciamento por serem mais reconhecidos no exterior do que em seu próprio país. MSST e Cotidiano Sensível presentes no encontro, são de fato os trabalhos mais fronteiriços, mas que no entanto partem de uma concepção tecnológica autonomista e de intervenção social, mais do que necessariamente uma investigação estética. (Será meu conceito de arte ultrapassado? :)
Como no caso brasileiro, movimentos culturais politizados como o Hip Hop parecem ter uma convergência maior com as tecnologias apropriadas. Foi na sede do Movimento Hip Hop brasileiro no ano de 2005 em Teresina, cidade do nordeste brasileiro, que aconteceu a primeira Oficina de Conhecimentos Livres, uma colaboração entre grupos independentes, instituições educacionais locais e governo federal. Uma diferença contrastante foi o uso exclusivo de ferramentas livres no Brasil, uma prática desenvolvida de forma autodidata e espontânea, totalmente adotada nas plataformas de governo e ações ativistas locais. Já na Colômbia observamos a pirataria massiva, e assim, não vêm a necessidade do uso de ferramentas livres. Apesar de termos acesso aos progamas e sistemas nas ruas como nossxs hermanxs, de certa forma neste aspecto nos aproximamos mais dos europeus do que latinos. Não vi no Flisol que ocorria na cidade de Medellín – encontro global de software livre - nenhum tipo de convergência com produção cultural ou movimentos sociais, e até mesmo com o próprio LSL apesar dos encontros acontecerem praticamente na mesma data. No entanto, ações solidárias aconteceram, como a coleta de depoimentos e mobilização sobre a Ley Lleras (lei que regulamenta a infração da propriedade intelectual na Internet) recentemente instaurada, que parece ter aproximado os desenvolvedores de software livre colombianos dos produtores culturais, majoritariamente presentes (os segundos) no LSL. Isso é mais evidente ainda quando relacionamos com a quantidade de iniciativas tech locais - dorkbot, medialab-bogotá, e outros encontros de arte e tecnologia que presenciamos - Fractal em Medelin e Intro-Lab em Bogotá, ou ainda Tecno-Parque, todos sem discussão sobre o uso de ferramentas livres.
Apesar de oficinas terem sido realizadas nas periferias da cidade, não houve nenhum tipo de intervenção no centro da cidade. A deriva de gringos em Moravia e Comuna 13 pode ter parecido turismo social? Como trazemos ao “centro” a cultura de rua e de raiz que presenciamos na periferia? A instalação de uma rádio ou a idéia que acabei podando de Brazileiro, teria sido muito sagaz nesse contexto: abrir o mapa brasileiro que apresentamos, acender um baseado e ficar por todo o período da palestra contemplando-o. Creio que suscitaria importantes reações.
Senti falta em Medellín como sinto em muitos encontros submidiáticos brasileiros, de um aprofundamento conceitual sobre o que fazemos. Isso creio que ajudaria a entender porque usamos as ferramentas que usamos. Formatos mais soltos e emergentes aconteceram durante o dorkbot e a mesa de Mulheres e Tecnologia. Essa reflexão seria importante num processo de difusão de nossas práticas que pode também ser entendida, por outro lado, como uma forma de apropriação imaterial disso que ainda é quase mágico em nós, a espontaneidade e a experimentação. Alguns conceitos que pesquei por lá foram o Trueque - assemelhando-se com o nosso Truquenologia. Termos mais adequados do que o inglês bending.
Criar metodologias de reflexão, análise de projetos, escritos coletivos, prescindindo dos projetos em si, poderiam nos ajudar a entender melhor as linhas de fuga que temos. Sabemos que no Brasil criamos projetos em qualquer circunstância (.gov, independente, anti.projetos) mas pouco refletimos sobre as ações realizadas. Há um certo pré-conceito sobre falar de falhas e erros entre os coletivos brasileiros, privilegia-se a cultura do vamo-que-vamo. Além disso, listas de discussão não são as ferramentas mais adequadas para fazê-lo. Talvez o mapeamento dos projetos como começamos a fazer em Medellin seja uma forma de falar deles sem nos expor tanto de forma individual.
Ações
Foi criada uma lista de discussão pós festival que creio formalizará o estreitamento de idéias entre os participantes. Poucas pessoas participam do IRC #labsurlab no Freenode e o n-1 é um sistema muito complexo que precisa ser pensado com carinho e de forma mais colaborativa. Depois do encontro foi aberto um n-1 dedicado a projetos desde el Sur https://anillosur.cc/ No Brasil temos uma experiência acumulada de projetos de servidores livres que só tem a colaborar (com pontos positivos e negativos) com esta rede em formação.
Seria interessante pensar num calendário comum de ações que integrasse as redes brasileiras e colombianas, podendo ser estendida à outros países da América latina, idéia que tem sido levada adiante por Pata de Perro. No Brasil estamos matutando a idéia de um pré(ou pós:) labsurlab no Rio de Janeiro em conversa com uma ação regional que trata da Geopolítica de Acesso Amazônica - Hacklab [Belém][1] para onde virão ativistas e artistas Colombianos. No Rio de Janeiro queremos realizar tanto projetos relacionados à ativismo para movimentos sociais em ferramentas livres, redes sociais alternativas e rádio como ação direta, quanto inserirmos nossas pesquisas locais como GAS (grupo de atualização da subjetividade), Yupana, MSST e espaços de experimentação e residência como ipê.
Temos um mapeio nacional importante de inciativas relacionadas à permacultura e ao conceito de metareciclagem, muitas vezes fundindo-se. A permacultura como um resgate de técnicas energéticas ancestrais e a metareciclagem como a apropriação tecnológica das ferramentas contemporâneas para re-mitificá-las. Conceitos como tecnoxamanismo, descolonização e mídia tática vira e mexe re-surgem em nossas conversas. Ocorrerá numa data muito próxima o Sudamérica Experimental no Rio de Janeiro (junho de 2011) http://www.sudamericaexperimental.com/?page_id=2 queremos fazer um bom bolado de tudo!
Como colocar isso em movimento? Que vienga el sur del sur!
T., 25 de maio de 2011, rio de janeiro, brasil
[1] http://hacklab.art.br
labsurlab para o blog baobá voador
https://n-1.cc/pg/groups/22816/labsurlab/
Encontro de experiências em labs, práticas, metodologias e ativismo midiático em Medellin, Colômbia. Segundo wikipedia, Medellin já foi considerada a cidade mais violenta do mundo, resultado dos conflitos com o narcotráfiuco nos anos 80. Por sua localização geográfica a cidade é porto de entrada de armas e saída de drogas, e portanto, de interesse geopolítico para grupos que negociam ambos os produtos. Os conflitos entranhados na cultura da cidade resultaram em formas distintas de superação como o movimento hip hop da Comuna treze ou o espaço cultural Moravia.
O convite foi feito através de Alejo Duque, depois de um contato em uma navegada casual pela plataforma N-1 (à procura de um espaço para abrigar a nova plataforma colaborativa g2g, link de Fabianne Balvedi). O interesse foi instantâneo, tanto por ser uma experiência que há anos fazemos, tanto por aprofundar os laços com a América Latina. Aqui re-encontrei Ricardo Brazileiro e depois de tantos anos trabalhando em rede em projetos distintos e vivendo consideravelmente perto, nos vimos com a difícil missão de retratar o que foi colocado como O complexo Panorama Brasileiro "Não é o completo não né?", abre Brazileiro a mesa. Juntou-se a nós Miguel Castro.
La chinga: contar em meia hora um panorama brasileiro de dez anos de ativismo, investigando processos, entendendo contextos. A imagem que nos ajudou nesse processo foi um mapeio prévio feito no ano de 2006 das redes em torno do ativismo, arte e cultura digital que recém-surgia http://publicacoes.midiatatica.info/cartografia.zip não-coincidentemente inspirada pela atual exposição do museu de arte moderna de medellin Cartografias Críticas.
Traçamos um trajeto por entre trabalhos como Metareciclagem, Encontros de Conhecimentos Livres, mimoSas, Pontos de Cultura, Submidialogias, e fizemos algumas reflexões, como por exemplo, nossos labs são temporários, itinerantes, precários. Ainda não temos uma infra-estrutura técnica estável, ou coletivos de gestão tech atuantes, sites são perdidos ou dá-se menos valor, como o Estúdio Livre, importantíssimo repositório de tutoriais, ferramentas, trabalhos, desenvolvido cada vez menos colaborativamente, assim como a rede de servidores livres, recém-desfeita. Fizemos uma charla portunhola sobre as dificuldades, uma grande reflexão coletiva. De forma divertida, performática, imagética. Ainda não temos o mínimo para nossas subsistências, diz o artista brasileiro. A observação astuta de uma companheira professora de artes gráficas livres argentina Lila - "Há um retrocesso, achava que eram muitos..." (Submidialogia com logo da petrobrás, retrocesso nas políticas públicas culturais). No entanto, na apresentação do MSST parecia que lá estava tudo de volta, a poética e a política. Uma apresentação espontânea que arrebatou o coração de muitas pessoas. Encantavam-se com a digitofagia. Plasticamente três terminais abertos, a voz de um homem e uma mulher, um manifesto e um computador sonoro. Imageticamente: todo um universo a descobrir.
Em inúmeras oficinas, mesas redondas, mesas de trabalho, apresentação de projetos, performances, conhecemos hacklabs e ações hacktivistas globais - como as encenadas contra as leis de propriedade intelectual lleras, acta, sinde. http://hacktivistas.net/ (Isaac Hacksimov sobre la Ley Lleras -> http://www.youtube.com/watch?v=zI4Vr6qaEVk&feature=player_embedded / Elkin Botero sobre Ley Lleras ->http://www.youtube.com/watch?v=ChkSr5FTL20). Vimos prá variar, o trabalho em comunidades paralelo ao institucional e uma grande empresa se apropriar do encerramento do evento com a Convocatória Vida. Das oficinas que participei - Trabalho em Comunidades, Video Cartografia e Mal de Arquivo destaco no segundo uma super produção em grupo, de equipe de filmagem, sites, produção de imagens e derivas, organizada pelo coletivo colombiano Antena Mutante, http://www.antenamutante.net/ Pablo de Soto de Hacketeria http://hackitectura.net/blog/ e muitos coletivos locais, nas periferias da comuna treze - lugar com um número incrível de mortes relacionadas ao narcotráfico, comuna quatro (moravia), a movimentação estudantil que agitava o centro da cidade de medellin e outros pontos com distintos conflitos sociais. O sitio criado durante a oficina pode ser acessado aqui -> http://meipi.org/medellin Das oficinas que não participei a que mais me impressionou muito foi a apresentação do trabalho de Carmem, mexicana do Open Solar circuits http://opensolarcircuits.cc/ que disse a mim que começou a trabalhar placas e trasnsistores ao ver no trabalho brasileiro mimoSa mulheres de biquíne montando uma máquina (mimoSa pipa). Artes vivas, políticas públicas, noise, bioarte com microscópios (bactérias VJ), impressoras 3D, protoboards lúdicas, interfaces abertas, essays, circuitos solares, transmissões web via PD, foram algumas de inúmeras e insuspeitáveis práticas.
A mesa Mulheres e Tecnologia também teve uma reviravolta interessante. Programada como Gênero e Tecnologia foi bombardeada pelos locais até trocar de nome. Aniara me explicou um pouco do contexto feminista colombiano, de assassinatos, resistências e desmobilizações. Tanto que na primeira conversa sobre ela entre An, Lila, Ana e eu ainda não havia presente uma colombiana. No segundo encontro Elena e Eliana apareceram sugerindo a dinâmica que usamos para a mesa, e que creio funcionou muito bem. Uma técnica chamada speeddating para que todxs falássemos de nossas realações pessoais com computadores, matemática, racionalismo e matriarcado. Depois de uma conversa coletiva mostramos 5 imagens que escolhemos sobre gênero (o termo que julgamos mais adequado para incluir a todxs) e as pessoas falavam sobre sua identificação com ela. Creio que foi a primeira mesa que mudou definitivamente (pois se seguiu assim) o formato palco do evento, e quando mais pessoas diferentes falaram sobre o tema, chegando a muitos pontos de inflexão conjunta: a necessidade de valorização do trabalho e subjetividade feminina, o racionalismo tecnicista de nossa sociedade atual e as falhas de nosso modelo educativo.
Paralelo ao encontro aconteceram flisol (fórum internacional do software livre), fractal (encontro de arte e tecnologia no jardim botânico) e um emocionante encontro com Cristóval Jodorowski. Rebeldia e hacks transformavam-se em ações. Conheci muitas pessoas falando português, mais do que em qualquer outro país que tenha visitado. Nossa história é a mesma, de favelas, narcotráfico, tambores, mães, coletivos, instituições, precariedade, lutas e sonhos. O ativismo aqui é calejero, pirata, político e também são muitos, muito bem articulados. A descoberta da colômbia não foi nada além ou tão necessário quanto a nossa própria redescoberta. De redes, labs, estruturas e sobretudo, amor, transmissão de energia através de nossos corpos, nossos abraços, nosso sorriso, nossa espontaneidade e a certeza do belo.
No eslabón prendido no último dia de evento, éramos um corpo só. Nem lembrávamos de nossos sonhos de coletividade destroçados, catávamos chatarras para lançá-las ao espaço...
T. treze de abril de dois mil e onze, bogotá, colômbia
http://www.labsurlab.co/ -- documentación https://n-1.cc/pg/groups/22816/labsurlab/
outras fotos http://www.flickr.com/photos/mammedellin/ -- http://fotos.midiatatica.info/gallery/main.php?g2_itemId=1577
EN CONSTRUCIÒN _ CO_LABORE :)
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